Para não dizer que não falei das flores


Quando as flores se calarem diante de nossos olhos surdos e o perfume desaparecer de nossas narinas talvez sejamos capazes não mais de perceber a vida mas conscientizarmo-nos, ao menos, de que aquilo que agora temos não passa de mera sobrevivência.

Porque o silêncio das flores é o silêncio das almas a ausência do perfume é o vazio do espírito a incapacidade de vermos a flor que se resseca diante de nossos olhos a flor que se esvai em pálidas pétalas é nossa incapacidade de sentir a vida de tirar da existência ainda algum alento alguma utópica explicação para este todo já vazio deste todo autodestrutivo.

Porque vem das flores a verdadeira beleza é delas que emanam a sensibilidade e a fragilidade tão necessárias à vida. Mas se flores já não há como havemos nós inundados de alguma vida? restam-nos as pedras e os espinhos e as sementes mortas no solo árido do corpo ressequido que nos é esmolado neste dia-a-dia em que nos danamos neste cotidiano em que nos enganamos ficcionando que somos alguma coisa além do trágico e do medo que nos consome.

Alessandro Eloy Braga

1 comentários:

Moneti Maria disse...

Uma graça, voçê leva jeito para esses mimus.
Gostei tambem das flores da semana são lindas.
Um beijo.
MONETI.

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